Aventuras Maternas

Sentir raiva é normal e é honesto que nossos filhos saibam disso

birraOs dentes ficam travados, dá uma vontade incontrolável de gritar ou de brigar até com quem não tem nada a ver com seus problemas. Mas quando o acesso de raiva vem, o controle sobre nós mesmos fica em xeque.

Quantas vezes já ouvimos dizer que não podemos ter ódio ou raiva? Que esses sentimentos fazem mal e podem prejudicar a nossa rotina. Criamos regras socialmente corretas e buscamos a perfeição a todo momento.

Aí vêm os filhos e percebemos que esse sentimento que tanto fazemos questão de esconder em nós, é quase tão orgânico quanto o ar que respiramos. Se pensarmos no filme “Divertidamente”, da Pixar, lembramos que apesar de a personagem não ter nascido com a sensação de raiva, não demorou muito para o “Sr. Nervosinho” dar o ar de sua graça em uma super crise de birra. Quer dizer, a raiva existe, está dentro de nós e as crianças pequenas não fazem a menor ideia do que significa a opção controle, na hora em que elas se sentem reprimidas e impedidas de deixar a “alegria” fluir.

Na última semana, meu filho Theo, que em geral, é calmo e extremamente comunicativo, se mostrou mais irritado e introspectivo. Não descobrimos o motivo em si, mas ele pediu todos os dias para não ir à escola e manteve aquela expressão de rosto mais avermelhada, com aspecto de quem ia chorar a qualquer momento.

Nossa maior desconfiança é a de que tivemos um fim de semana maior com feriado, brincamos mais e ele achou que ficaríamos mais juntinhos todos os dias. No entanto, o que aconteceu na volta do feriadão foi que minha carga de trabalho aumentou e a do meu marido também, portanto ficamos mais tempo longe do que o normal. Mudanças simples como essas, comuns à nossa rotina adulta, para uma criança podem provocar uma sensação mais sofrida.

raivaCriança gosta de rotina, precisa de afeto e tem percepções diferentes de suas experiências. Por isso, ficar de olho sempre é fundamental. Diante disso, fui buscar alguma dica na literatura, que pudesse me ajudar a entender essas mudanças bruscas no humor dos nossos filhos e descobri o livro infantil “Ficar com raiva não é ruim”, de Michaelene Mundy.

Em geral, ela explica para as crianças, algumas situações que podem deixá-las chateadas. “Pode acontecer de você se sentir frustrado quando não consegue resolver um problema ou mudar uma situação incômoda; e às vezes as coisas simplesmente não têm jeito de dar certo. A culpa não é de ninguém”.

E, em alguns trechos” (como os que selecionamos abaixo), explica que a raiva nem sempre é expressa na hora, pode ficar guardada e surgir num momento que nem faria mais sentido. Afinal, crianças demoram mais para digerir suas sensações também. Tudo é muito novo e difícil de manejar.

“É sempre bom saber exatamente do que você tem raiva. Talvez você chute seu gatinho porque ainda está com raiva do colega que tratou você mal durante o recreio.”

“Quando estiver com raiva, DIGA que está com raiva!”

“Diga ‘Estou com raiva’ ou ‘Estou irritado’. É importante ter consciência de que você está com raiva e dizer isso aos outros. Mas fale sem gritar e sem lamentar-se”

“Converse com a pessoa que o deixou irritado. Diga-lhe como você se sente e por quê. Diga ‘Estou com raiva porque…’ Diga-lhe o que você precisa. Por exemplo, você pode dizer calmamente à sua irmã: ‘Eu também gostaria de usar o computador. Que tal se você e eu o usássemos meia hora cada um?'”

“Faça as pessoas saberem que você está até mesmo com ‘um pouco’ de raiva. Do contrário, talvez você espere até estar com “muita” raiva, e então vai ser mais difícil controlar-se”.

Nossas reações se originam sempre de ações da nossa rotina. E a de nossos filhos também. Cabe a nós analisar o que está acontecendo com eles. Omitimos tantos sentimentos dentro de nós, que muitas vez deixamos que eles se transformem em situações fora de controle que terminam em fins de relacionamentos, demissões e desentendimentos. Uma conversa em qualquer fase da vida é válida.

Imaginem na infância? Nossos pequenos vulcões estão prestes a entrar em erupção todos os dias. E às vezes é bom que essa lava incandescente saia de dentro deles, com apoio dos pais. Só assim, poderemos mostrar como eles podem lidar com a agressividade e ansiedade que acompanham esse sentimento. Ter raiva é normal,as consequências do sentimento é que não podem acontecer, como machucar alguém ou a si mesmo. Nestas horas, a presença e o afeto são fundamentais.

E como lidar na hora da crise de raiva? O que costuma dar certo por aqui e entre as mães que acompanho, sugiro na lista abaixo. Espero que funcione com vocês!

Não perca o controle. E não deixe que a irritação do momento te contamine. Paciência é fundamental;

Conte até 10 junto com seu filho, fazendo-o respirar na mesma frequência que você. É uma boa estratégia para retomar o foco da criança;

3. Não ceda aos apelos da criança e mantenha sua palavra. Uma pequena vitória, abre espaço para novas “lutas”. Mas tente contornar os pedidos, mudando o tema da conversa ou chamando a atenção da criança para outro assunto;

4. Dê exemplos. A forma como reagimos vai dar o tom de como nossos filhos vão se comportar. Calma e leveza nos movimentos sempre são a melhor opção;

5. Cantinho do Pensamento, especialmente para crianças maiores de 3 anos, funciona para que eles de fato racionalizem o que fizeram, ou pelo menos, extravasem a raiva naquele espaço, sem a presença dos pais;

6.Não agir como a criança, medindo forças com ela e dizendo “Não” como competição. Mostrar flexibilidade também é um exemplo positivo;

7. Tão importante quanto manter o “Não” até o final e o dizer “Não” apenas quando tiver certeza que vai assumir. Ex: “Se você continuar assim, não vamos mais viajar” (quando as passagens estão compradas e as malas prontas);

8. Um abraço pode funcionar como um bálsamo. A criança pode até se debater em alguns casos, mas ao receber o afeto de um abraço, se sente prontamente segura. Muitos acessos de raiva são causados por insegurança de estar em um lugar diferente, com barulhos ou situações que incomodem seu pequeno;

9. Reforce as atitudes positivas

Lembre de algo bom que ela fez minutos antes da crise ou chame atenção para alguma característica bacana da criança, para um sorriso bonito que ela deu ao limpar as lágrimas ou para o pedido de “desculpas”;

10. Diga que confia no seu filho. Mostre que você sabe que ele vai lidar melhor com seus sentimentos ou que você está ali com ele para ajudá-lo. Crianças precisam se sentir seguras e confortáveis para lidarem bem com as mudanças de rotina que acontecem quando menos se espera.

                           

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Priscila Correia

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