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Entenda o que são os Transtornos do Espectro Autista e a importância da relação entre escola e família

20151209_73450_autismoEstima-se hoje que 70 milhões de pessoas tenham autismo, cerca de 1% da população mundial. E todo dia 2 de Abril, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo é lembrado ao redor do mundo, como uma forma de chamar mais atenção para o transtorno do espectro autista (nome “oficial” do autismo), cuja incidência em crianças é mais comum e maior do que a soma dos casos de AIDS, câncer e diabetes juntos. No Brasil estima-se que tenhamos 2 milhões de autistas, mais da metade ainda sem diagnóstico.

E esta falta de conhecimento é justamente um dos maiores problemas que as crianças com TEA enfrentam. Muitos pais não querem assumir o transtorno e não procuram tratamento e acompanhamento clínico. E as escolas não sabem lidar com a forma de falar, de expressar emoções, de entender linguagem subliminar, expressões faciais e mudanças de tom da voz, que a criança autista tem e que muitas vezes causam incompreensão por parte das explicações da professora e das histórias nos livros.

“Por conta disso, a própria alfabetização já se torna um grande desafio. Sem isso, é impossível que se desenvolva a capacidade de ler e entender o mundo em sua volta. No entanto, os problemas começam, principalmente, na falta de habilidade de professores e pedagogos, que não sabem como se processa o pensamento de um autista”, explica a Psicopedagoga, doutora em Psicologia Clínica, Dayse Serra, colaboradora da Neuro Saber.

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O que é preciso que os pais avaliem ao escolher uma escola para uma criança autista ter qualidade de ensino, então? A psicopedagoga enumera alguns pontos abaixo:

– Às vezes, a escola tem outra linha de trabalho e o educador padroniza o ensino sem pensar nos estudantes com necessidades especiais. Isso aumenta as chances de não dar certo.

– Para alfabetizar e educar alguém com TEA é necessário entender o funcionamento dela, suas alterações no que diz respeito a percepção de mundo, as sensações, os medos e seu desempenho linguístico.

– O modelo mais adequado que facilita o processo de alfabetização é o fônico. Esse método ensina primeiro os sons de cada letra e então constrói a mistura desses sons em conjunto para a pronúncia completa da palavra. Por meio dele, pode-se produzir a consciência fonológica e a criança consegue adquirir compreensão do que ela está lendo.

– Não basta só entregar o livro ao aluno e esperar ele aprender a ler. Por que não? Pois, de acordo com o nível de autismo, o significado da leitura varia muito. Pode representar o mesmo que para uma criança neurotípica, como pode não fazer o menor sentido. Isso acontece porque, geralmente, o autista não consegue compreender o signo linguístico e não entende o que é uma representação da comunicação.

– Mesmo aqueles que apresentam hiperlexia, que é a leitura precoce, é preciso saber que ler não significa compreender. Em muitos casos, apresentam dificuldade na interpretação de texto, pois a leitura é feita mecanicamente.

– É importante trabalhar mais a imaginação do aluno. Por exemplo, sempre que se fizer algum tipo de leitura espontânea, é preciso ajudar o aluno a dar sentido à história.

– É fundamental que se aprenda a construir uma frase e um sentido. Deve-se sempre perguntar sobre o que está entendendo. Uma pessoa que não faz inferência ou uma dedução, não tira uma extração de significado.

Nem todos os Transtornos do Espectro Autista são perceptíveis ao primeiro olhar

Quando se fala de crianças que aprendem a ler precocemente e tem outras habilidades sociais e intelectuais, que aparentam ser de uma criança neurotípica, a forma de lidar muitas vezes se torna ainda mais difícil. Camuflada pela incompreensão dos pais diante dos sintomas da criança que ainda assim causam grandes incômodos e dificuldades para ela e para a comunicação com pais, mas não são tão perceptíveis assim.

Segundo o neuropediatra Dr. Clay Brites, a desinformação faz com que esses pacientes sejam mal interpretados, causando sofrimento deles e também dos responsáveis. Pais e mães devem entender que as particularidades do transtorno são passíveis de condução no cotidiano por meio de estratégias de linguagem e de autodefesa. “É preciso melhorar as condições deles para proporcionar o máximo de autonomia na vida social e escolar e, mais tarde, na faculdade e no trabalho”.

Por esse motivo, o profissional diz que a prevenção está na constante busca de informações corretas e atualizadas. Ele explica que quando parentes e professores estão cientes de tudo o que envolve o TEA, fica mais fácil para resolver possíveis problemas como, por exemplo, no relacionamento em sala de aula e também nas formas de intervenção em casa.

A questão é que poucas pessoas sabem que há diferentes classificações identificadas pela intensidade do autismo, como, por exemplo, leve, moderada e severa. Elas são definidas pelo grau de comprometimento do desenvolvimento neuropsicomotor, das questões adaptativas, nível de dependência e necessidade de intervenções para obter mínima funcionalidade. “Também é preciso levar em conta as comorbidades, ou seja, transtornos adicionais que podem ser apresentados pelo paciente. A proposta da avaliação é sempre para identificar suas dificuldades e buscar meios para ajudá-los”, explica o neuropediatra.

Entre as categorias, há a chamada Síndrome de Asperger. Trata-se de uma condição mais leve dentro do espectro. Nela, o comprometimento poupa, de certa forma, a inteligência e a linguagem. “Eles têm uma maior funcionalidade e mais autonomia para se adaptar aos desafios sociais e acadêmicos quando comparados com outros tipos”.

O neuropediatra relata que mesmo com toda a capacidade intelectual, os “Aspies” (como são chamados no meio) apresentam restrições na forma de falar, de expressar emoções, de entender linguagem subliminar e processos de comunicação que dependem de mecanismos não-verbais, como gestos, expressões faciais e mudanças de tom da voz, com tendência a intelectualização e racionalização de tudo, além de exagerado interesse por determinados assuntos – relata.

keanuOs pacientes com essa síndrome podem ser independentes e levar uma vida normal, como aconteceu e acontece com famosos brilhantes como Einstein, Newton, Bill Gates e até mesmo com o jogador de futebol Messi e o ator Keanu Reeves.

A questão é que eles precisam ser treinados na infância e na adolescência a adquirirem maior destreza nas relações sociais. Dessa forma, eles podem aprender melhor regras, rotinas e meios de comunicação mais compreensíveis para saber compartilhar informações e assumir mais competências para conviver melhor com seus pares. “Por esse motivo, é extremamente necessário que a família estude profundamente todas as características envolvidas no tipo de TEA do filho, além de buscar um diagnóstico correto”, complementa o Dr. Brites.

                                          

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Priscila Correia

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