Aventuras Maternas

A importância do imaginário infantil na primeira infância

Por Fernanda Machado

O desenvolvimento cognitivo, que começa antes mesmo do nascimento, prossegue durante a época das brincadeiras. Corriqueiramente chamado de período “pré-escolar”, a fase da creche é uma época mágica e cheia de fantasias, em que a criança passa por um importante processo de aprendizagem. É um estágio que mais apropriadamente devemos chamar de “primeira infância” e que, sem dúvida, tem um “projeto” de desenvolvimento bastante próprio.

Um dos prazeres de observar crianças é ouvir a compreensão fantasiosa e subjetiva que elas têm de sua própria vida. Elas nos divertem com seu pensamento imaginativo e mágico, quando conversam com o amiguinho invisível, quando ficam conjecturando onde o sol dorme, ou quando afirmam com segurança que elas dormem de olhos abertos. Ao mesmo tempo, nos surpreendem quando se confundem com metáforas (como “mamãe está presa no trabalho” ou “o motor do carro morreu”) e quando se mostram ilógicas quanto a ocorrências corriqueiras (por exemplo, acreditando que a lua as seguem quando andam à noite). Aos 3 anos, elas acreditam que os desejos geralmente se concretizam e que os adultos, as crianças e provavelmente os gatos e os cachorros (mas não os bebês) podem formular desejos se (assim) quiserem (Woolley et al., 1999). Evidentemente, o pensamento é guiado pelas fantasias e imaginário infantil.

Quando, pelo senso comum, falamos em “fases de vida”, estamos propriamente preestabelecendo estágios, momentos em que devemos vivenciar determinadas experiências mais ou menos parecidas de acordo com determinado período do desenvolvimento. É certo que cada pessoa terá uma experiência particular, de acordo com a cultura e o meio social em que vive. Entretanto, o período de maturação cerebral deve acontecer mais ou menos nas mesmas épocas para todos os seres humanos, o que explicará, por exemplo, o motivo pelo qual a primeira infância, a fase escolar, a adolescência, a fase adulta e a velhice possuem características muito particulares e específicas. Hoje nos atentaremos à primeira infância.

Sabemos que o processo de mielinização, envoltório da bainha de mielina nos axônios, já acontece durante o período pré-natal, quando o nosso cérebro já começa a ser preparado para fazer importantes conexões e, assim, nos preparar para o mundo pós-natal, que requer o mínimo de instinto de sobrevivência. É importante entendermos esse conceito, pois é pelo processo de maturação cerebral que poderemos entender melhor porque determinados comportamentos acontecem em algumas fases e outros não.

Aos 2 anos de idade, a criança já tem um cérebro em peso e tamanho muito próximos ao de um adulto, o que poderia supor que esse cérebro faria as mesmas conexões que um cérebro maduro. Entretanto, essa suposição não é verdadeira, pois o cérebro humano, de acordo com pesquisas recentes, apesar de iniciar seu processo de maturação lá no período pré-natal, só chegará a termo por volta dos 20 e poucos anos de idade, ou seja, não é apenas fundamental que tenhamos um cérebro, mas que tenhamos um cérebro que mature e proporcione conexões eficazes, capaz de criar uma orquestra em sintonia que comande nossos comportamentos, emoções e sentidos de forma funcional. Daí a importância da estimulação e dos marcos de cada estágio do desenvolvimento.

Quando falamos em imaginário infantil, amigo invisível, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, entre tantos outros símbolos, estamos nos referindo a um período em que o cérebro está fazendo muitas conexões (sinapses), e precisa de estimulação externa (do meio) para continuar trabalhando, e, assim, em algum momento do desenvolvimento começar a fazer suas podas neurais (eliminação de neurônios que não estão sendo utilizados) e fortalecer sinapses (a grosso modo, conexões neuronais) necessárias para ultrapassar um estágio.

Depois de entendermos que, necessariamente, precisamos de conexões cerebrais que sejam funcionais e nos permitam estabelecer o elo com o mundo a partir de comportamentos e emoções, fica fácil associarmos porque o imaginário infantil é tão importante para a criança na primeira infância, pois é esse imaginário permeado de símbolos e fantasias que permitirá aos pequenos a lidar com uma “fase” que é tão diferente da do adulto. O cérebro deles, devido a falta de maturação para a idade, que é esperado, não pode agir e dispor de racionalidades como o nosso, por isso “lançam mão” de ferramentas pertinentes ao que eles podem lidar, de acordo com idade cronológica e maturação cerebral. Quanto mais imaginação e fantasia a criança criar, mais sua criatividade, abstração e flexibilidade cognitiva estarão aptos a ingressar no estágio posterior.

Quando damos asas ao Papai Noel e ao Coelho da Páscoa, estamos estimulando um cérebro a pensar, criar e inibir imagens, acrescentar conteúdos de seu cotidiano a novos temas, ou seja, estimulando a aprendizagem, a linguagem, a percepção, entre tantas outras funções. Afinal, isso não se resume apenas em um Papai Noel ou Coelho da Páscoa, mas, sim, a um contexto histórico que é importante os pais apresentarem, já que faz parte de uma cultura e durante muito tempo eles se sentirão motivados a escreverem (mais uma habilidade a aprender) cartas e a encontrarem ovos espalhados pela casa (brincadeira que envolve imaginação, coordenação e raciocínio lógico). Portanto, a concretude que nos leva a  pensar em seres totalmente inocentes não pode fazer parte desse momento da infância. Aliás, ela é bastante prejudicial. E quando chegar o momento de “descobrir” que o Papai Noel e Coelho nunca existiram, será o momento de entender que nem tudo é perfeito e que, a partir dali, deverão aprender a lidar com frustrações, o que é muito saudável.

Quando damos um lego para uma criança montar, devemos observar o quão criativa aquela criança está sendo, o que ela está criando, pois suas montagens refletem seu dia a dia. Mais que isso, sua montagem reflete seu imaginário. Uma criança com um cérebro em franco desenvolvimento, fazendo milhares de conexões, precisa ter ideias “mirabolantes”, precisa criar, criar e criar. Todas as crianças com um desenvolvimento neurotípico (que não apresenta distúrbios significativos no funcionamento psíquico)  têm potencial para isso. Entretanto, se não forem estimuladas por seus cuidadores, infelizmente essa imaginação ficará pobre, o que subentende-se um cérebro trabalhando menos; e um cérebro trabalhando menos subtende-se desuso, ou seja, funções importantes podem deixar de ser desenvolvidas.

Portanto, uma criança que brinca é uma criança que cria, e uma criança que cria é um ser humano desenvolvendo um potencial diverso em um estágio de desenvolvimento que deixará consequências para estágios posteriores. É importante lembrar aos cuidadores (aqueles que cuidam e criam) que brincar não significa deixar o filho na frente de um tablet horas a fio, deixar o filho na frente da TV nas horas vagas, comprar um lego que venha com sugestões de montagens, “abarrotar” a casa de brinquedos que não estimulam a coordenação motora e, principalmente, não estimulam a imaginação e a criação própria. Não existe nada mais promissor e saudável para uma criança do que ela própria fazer sua boneca de pano ou inventar seu carrinho com a caixa de papelão.

Fernanda Machado é psicóloga em terapia cognitivo comportamental com formação em transtornos psiquiátricos e neuropsicologia. www.fernandamachado.psc.br

Informações: Assessoria de Imprensa

Sobre o autor Ver todos os posts

Priscila Correia

Deixe uma resposta

Your email address will not be published. Required fields are marked *