Aventuras Maternas

É preciso, sim, vacinar

Nos últimos meses, vimos surgir um movimento bastante perigoso: um debate sobre a não-vacinação de crianças. E embora pareça absurdo pensar no assunto, uma enorme quantidade de pais têm decidido deixar os filhos sem vacinas.

Para falar mais sobre o tema e tirar algumas dúvidas, conversamos com Marcos Tendler, diretor da Prophylaxis.

Aventuras Maternas: O movimento de não-vacinação surgiu a partir de um artigo científico de pesquisadores ingleses que levantaram a hipótese de que o autismo estaria relacionado à vacina MMR, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba. Isso faz algum sentido?

Marcos Tendler: O Movimento anti-vacina ou Loby anti vacina é um movimento que tem quase a mesma idade das vacinas (cerca de 240 anos) e é oriundo da falta de informação qualificada sobre vacinas e posteriormente impulsionado pela indústria farmacêutica, que efetivamente vive da doença. As vacinas são imunobiológicos comprovadamente seguros utilizados no campo da medicina coletiva e preventiva. Esse caso do falso estudo com a vacina MMR ficou marcado pelo nível de manipulação mentirosa que o Loby anti-vacina chegou para causar pânico, utilizando uma vacina emblemática e de uso obrigatório em todo o mundo. O estudo já foi desmentido, o autor foi obrigado a se retratar e banido da comunidade científica internacional.

Aventuras Maternas: Doenças erradicadas (ou quase) no Brasil estão voltando. Fale sobre isso.

Marcos Tendler: O caso da volta de doenças já controladas, como é o caso do Sarampo e da Poliomielite, se deve principalmente pela queda nos níveis de cobertura vacinal da população. Isso se deve a alguns fatores como falta de informação qualificada, desinformação deliberada e de certa forma, inclusive, até com a eficácia das próprias vacinas. Como existe hoje toda uma geração de pessoas que não conviveu com a ameaça dessas doenças (tem gente que nunca viu um caso de sarampo ou pólio), começam a achar que a doença não existe. Mas as doenças só são controladas se mantivermos os índices de cobertura vacinal.

Aventuras Maternas: Muitas mães têm medo de vacinar os bebês por medo dos efeitos colaterais. Há riscos de efeitos graves que levem os bebês/crianças ao hospital? Ou em geral são apenas febre e dor local?

Marcos Tendler: Antes de tudo, uma vacina (para ser assim considerada) tem que se provar segura. Só depois de ter sua segurança comprovada é que uma vacina tem sua eficácia testada e, então, é liberada para uso. As reações comuns associadas à vacinação são febre branda (quando há) e dor local. Em nenhuma hipótese as vacinas podem causar a doença para qual elas induzem proteção (isso é um mito).

Aventuras Maternas: A partir de que temperatura é importante buscar ajuda médica?

Marcos Tendler: Em caso de febres maiores do que 38 ou 39 graus.

Aventuras Maternas: Explique, em poucas palavras, sobre a importância da vacinação.

Marcos Tendler: Todas as doenças que podem ser prevenidas pelas vacinas são extremamente perigosas e letais, até por isso que foram movidos os maiores esforços para que hoje essas doenças possam ser evitadas pela imunização. O calendário infantil de vacinação é constantemente atualizado justamente para proteger ao máximo os bebês antes de serem expostos a doenças potencialmente graves. No caso de adultos, a vacinação é uma ferramenta de manutenção da qualidade de vida e saúde.

Aventuras Maternas: Explique, em poucas palavras, por que vacinar é um ato de cidadania.

Marcos Tendler: O indivíduo vacinado não fica doente e não passa doença. Desta maneira, vacinando, estamos contribuindo para a diminuição de casos de doenças infecciosas transmissíveis em nossa sociedade.

Aventuras Maternas: Bebês com menos de 1 ano não podem ser vacinados contra o sarampo. O que pode ser feito nesse caso? Explique mais sobre o bloqueio.

Marcos Tendler: A vacinação de bloqueio funciona da seguinte forma: vacinando as pessoas que têm contato direto com o bebê, conseguimos bloquear a possibilidade de transmissão de doenças infecciosas transmissíveis para quem não pode ser vacinado, seja por idade ou por qualquer outra circunstância.

Aventuras Maternas: Fale sobre a excelência do Brasil em relação às vacinas.

Marcos Tendler: O Programa de Vacinação é um programa global cujas diretrizes são determinadas pela Organização Mundial de Saúde e regulamentado por organizações regionais (para as Américas, a Organização Pan-Americana de Saúde) e centros normatizadores (no caso das Américas, o CDC americano). Com essa chancela, cada pais desenvolve um Plano Nacional, que no Brasil se chama PNI (Programa Nacional de Imunização). O PNI é um plano extremamente bem organizado que cuida de mais de 30.000 postos de vacinação em todo o território brasileiro e disponibiliza por ano mais de 300 milhões de doses de vacinas contra as principais doenças contagiosas preveníveis por vacinação (Tuberculose, Poliomielite, Difteria, Tétano, Coqueluche, Haemophilus, Sarampo, Caxumba, Rubéola, Meningite, Catapora, Hepatites A e B, Gripe, Pneumonia e HPV). No contexto de saúde pública, o programa brasileiro é muito abrangente e oferece uma quantidade significativa de vacinas, inclusive mais do que as obrigatórias pela OMS. Seguindo a diretriz fundamental do Programa Global para controle e erradicação dessas doenças, o principal público-alvo são crianças de 0 a 6 anos (com exceção do HPV para Adolescentes e da Gripe para Idoses). Na contramão de outros serviços públicos, podemos nos orgulhar do Programa Nacional e deveríamos usar mais as vacinas disponibilizadas gratuitamente para população. A principal diferença entre as vacinas da rede pública e da rede privada é na oferta de produtos (na rede privada, existem mais vacinas e vacinas mais modernas contra os mesmos grupos de doença), como, por exemplo, no caso das Meningites, que no posto se vacina apenas contra o subtipo C e nas clínicas particulares contra os Subtipos ACWY e B. Outra diferença é nas vacinas combinadas, já que na rede privada temos mais ofertas. E principalmente no público-alvo, pois enquanto o PNI é basicamente voltado para crianças de 0 a 6 anos, na rede privada temos vacinas para todas as idades disponíveis o ano todo.

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Priscila Correia

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