Um novo estudo publicado nesta terça-feira (24) na revista científica Nature Communications acendeu um alerta sobre os impactos de dietas ricas em gordura e açúcar nos primeiros anos de vida na saúde do cérebro ao longo da vida adulta.
A pesquisa foi conduzida pela University College Cork, na Irlanda, e aponta que hábitos alimentares inadequados durante o período da infância podem deixar marcas persistentes no cérebro e no comportamento alimentar mesmo durante a fase adulta.
O que o estudo mostrou?
Os pesquisadores ofereceram a camundongos filhotes uma dieta semelhante ao chamado “fast food”, rica em gorduras e açúcares. Quando adultos, mesmo após passarem a consumir alimentação equilibrada, os animais mantiveram alterações importantes no comportamento.
Apesar de o peso corporal ter sido normalizado, os camundongos continuaram preferindo alimentos doces e gordurosos e ingerindo mais do que o necessário. Também apresentaram comportamento de desperdício alimentar, remexendo e esfarelando a comida.
A análise cerebral revelou alterações no hipotálamo, região responsável pelo controle da fome. Houve redução de neurônios ligados à saciedade, como os neurônios POMC, que enviam ao organismo o sinal de que é hora de parar de comer.
O estudo ainda identificou diferenças entre machos e fêmeas. As fêmeas demonstraram maior vulnerabilidade a determinadas alterações cerebrais, enquanto os machos apresentaram mais dificuldades no metabolismo de gorduras e açúcares.
Intestino e cérebro: Uma conexão direta
Outro ponto importante da pesquisa foi a relação entre microbiota intestinal e comportamento alimentar. A administração do probiótico Bifidobacterium longum ajudou a restaurar o equilíbrio intestinal e a normalizar o comportamento dos animais. O uso de prebióticos como FOS e GOS também contribuiu para recuperar a comunicação entre intestino e cérebro.
De acordo com Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós PhD em neurociências e especialista em genômica com formação avançada em Nutrição Clínica em Portugal, os achados reforçam uma tendência já observada anteriormente pela ciência.
“Cada vez mais temos respostas da ciência sobre a forte relação entre a alimentação e a saúde cerebral”, destaca.
Predisposição genética e alimentação
Ainda de acordo com o especialista, a alimentação pode interagir diretamente com a expressão genética ao longo da vida.
“A predisposição genética a determinadas doenças pode ser afetada pela alimentação. Ou seja, mesmo que exista um risco herdado, o estilo de vida pode potencializar ou modular essa tendência”, explica Fabiano , idealizador do GIP – Genetic Intelligence Project, que analisa predisposições genéticas em diferentes áreas da saúde. De acordo com ele, compreender esses fatores permite intervenções mais estratégicas desde a infância.
“A genética não é uma sentença, ela apenas indica caminhos possíveis. A nutrição adequada, principalmente nos primeiros anos de vida, junto com outros fatores do estilo de vida, podem influenciar como esses genes vão se manifestar ao longo da vida”, afirma.
Efeitos a longo prazo no cérebro
Apesar do estudo ter sido realizado em modelo animal, os pesquisadores destacam que os resultados ajudam a compreender mecanismos biológicos que também podem ocorrer em humanos.
“A infância é um período crítico para o desenvolvimento do cérebro. Alterações nessa fase podem repercutir no comportamento alimentar, no metabolismo e até no risco de doenças crônicas na vida adulta”
“Os achados reforçam a importância de políticas públicas, orientação familiar e educação alimentar desde cedo. Mais do que uma questão estética ou de peso, a alimentação na infância pode ser determinante para a saúde cerebral ao longo da vida”, alerta Agrela, que já havia comentado sobre o tema em um estudo anterior.
Informações: Assessoria de Imprensa.
