Aventuras Maternas

Comida que pode ser fatal

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A associação entre comer bem e manter boa saúde é uma máxima para as pessoas. Entretanto, mais que ingerir os alimentos corretos, é preciso atenção ao fato de algum componente, por mais saudável que seja, fazer mal. Não, não são apenas as gorduras trans, refrigerantes e afins, que são um problema. Existe, sim, um grupo de pessoas que tem uma série de alergias a alimentos considerados do bem. 

E esse número de indivíduos com alergia, segundo um estudo de 2015, realizado pela Universidade Northwestern, dos Estados Unidos, mostrou que, nos últimos anos, tem acontecido um aumento global da quantidade de crises alérgicas causadas por alimentos – a pesquisa analisou 200 hospitais no estado de Illinois entre 2008 e 2012.

 A chefe do Serviço de Pediatria do Hospital Rios D’Or, Maria Fernanda Melo Motta, especialista em alergia e imunologia, explica que as alergias alimentares vêm aumentando a sua incidência nas últimas décadas e estima-se que atinjam 6% das crianças menores de 3 anos. Os alimentos mais frequentemente implicados são o leite de vaca, ovo, soja, trigo, amendoim, milho, camarão e castanhas. Nas crianças, o leite de vaca é o principal agente e em segundo lugar o ovo. Perguntada se, normalmente, as crianças com alergia alimentar já nascem com ela ou se aparecem com o tempo, ela conta que os pequenos nascem com uma predisposição genética e desenvolvem sintomas de alergia conforme vão sendo expostas aos alergenos, no caso, aos alimentos. Alessandra Santos, especialista em Nutrição Clínica do mesmo hospital, diz, ainda, que estudos indicam que de 50 a 70% dos pacientes com alergia alimentar possuem história familiar de alergia. “Se o pai e a mãe apresentam alergia, a probabilidade de terem filhos alérgicos é de 75%.”, complementa. 

Cristiana Meirelles, pediatra infectologista e diretora da HomePed, lembra, também, que o número de casos de alergia alimentar parece estar aumentando mundialmente, pois está associado paralelamente à maior detecção diagnóstica. Ela diz, ainda, que o aleitamento materno exclusivo até os 4 a 6 meses de vida e a introdução de alimentos sólidos já a partir desta idade podem prevenir a ocorrência de alergia alimentar em crianças.

Luíza Diener, blogueira da TopMothers, mãe de Benjamin (seis anos), Constança (três anos) e Guadalupe (sete meses), conta que o mais velho apresentou alergia à proteína do leite da vaca (APLV) desde que nasceu, mas só recebeu o diagnóstico quase um ano e dois meses depois. Porém, apresentou intolerância a alguns alimentos durante a introdução alimentar, por volta dos seis meses, como tomate, cenoura, beterraba, berinjela e glúten. “Vou me ater à APLV e dizer que ele apresentou alergia não mediada por IgE, mas foi uma alergia duradoura que começou intensa e depois tornou-se mais branda.  Já Constança só apresentou APLV e as reações se mostraram mais brandas, porém a alergia só passou por volta dos 2 anos de idade. Ambos nasceram com alergia.”, explica. Luíza conta que, hoje, Benjamin aparenta estar perfeitamente curado – “introduzimos o leite na alimentação dos dois simultaneamente, há menos de quatro meses”- e Constança está reagindo muito bem ao leite, apesar de ainda apresentar reações brandas quando consome leite e seus derivados em excesso. 

Para descobrir que os filhos tinham alergia, alguns sintomas levaram Luíza a essa desconfiança, como erupções na pele (às vezes pequenas bolinhas avermelhadas, às vezes placas brancas/vermelhas ásperas), especialmente nas dobras dos braços e pernas, ao redor dos lábios, pescoço e região perianal. “Além disso, costumava ter uma constante assadura na região do ânus, independentemente da marca de fralda ou pomada que usássemos, fezes frequentes e sempre moles/pastosas. Ele evacuava de cinco a oito vezes por dia mesmo depois de completar um ano de idade, e também apresentava refluxo, principalmente após as mamadas, acompanhado de muita dor e uma irritação que parecia nunca abandoná-lo. Mas o que mais nos preocupou foi a questão da febre e na parte respiratória. Quando consumia algum derivado de leite – qualquer que fosse – ele apresentava febre. Como já teve convulsões febris, a febre sempre foi algo que nos deixou muito alertas e apreensivos. Mas a questão respiratória foi a que mais pegou de fato: o peito cheio de muco, o nariz sempre escorrendo, uma frequente e repentina falta de ar. Após três meses consecutivos tendo febre toda semana (pelo menos 4 a 5 dias por semana), juntamente com esses outros sintomas respiratórios, após três antibióticos que nunca melhoravam sua condição respiratória mesmo com outros medicamentos broncodilatadores, cortisona e outros remédios indicados para bronquite e asma, decidi por conta própria suspender da alimentação dele e da minha todo e qualquer derivado de leite por um mês. Em um mês eu vi a febre, os problemas respiratórios, o refluxo, as erupções cutâneas e outros sintomas diminuírem consideravelmente. Alguns simplesmente desapareceram. Então decidi conversar com a pediatra sobre o assunto. Ela havia descartado a possibilidade de APLV por ele não apresentar alguns sintomas ‘clássicos’, como sangue nas fezes ou baixo peso/pouco ganho de peso. Daí em diante, absolutamente todo e qualquer traço de leite foi eliminado da dieta dele e da minha, já que segui amamentando até que ele completasse dois anos e três meses, quando desmamou naturalmente”, complementa Luiza. Vale lembrar que os sintomas variam de criança para criança.

Outro caso que chama a atenção pela enorme gravidade é o de Angélica Bastos Machado, mãe de Vítor, de seis anos. Ela explica que o filho possui uma alergia múltipla e severa e imunodeficiência, e sua alimentação é restrita a quatro alimentos: batata inglesa, cará, suco de maçã e suco de pera. Sua alergia se manifestou logo ao nascer, ao receber leite de vaca na maternidade. Diante disso, ficou seis dias na UTI Neo Natal. “Com dois meses já iniciamos com especialista e fechamento do diagnóstico. O diagnóstico veio cedo por possuir uma filha mais velha APLV. E os sintomas eram refluxo intenso, colite crônica, erupções na pele, distensão abdominal, cólicas intensas. Os sintomas permaneceram e ao longo dos anos tivemos edema nos olhos, feridas anais, fecalomas, vômitos, broncoespasmo, pneumonia, entre outros.”, comenta.

É de se esperar que, em casos assim, com uma alergia tão severa, o comportamento da criança diante de tantas restrições seja um problema. Entretanto, o que vimos nesses casos são crianças extremamente maduras e conscientes de sua condição. Angélica conta que sempre jogou aberto com o filho. “Todo cuidado foi e sempre é dado. Mudamos todos os hábitos de casa, assim como não frequentar festas infantis, locais com muita gente e muita comida, orientação a ele. Ele nos ajuda muito com sua compreensão e atitudes. Hoje, quando vê alguém comendo algo, diz que precisa lavar a mão e a boca com sabonete para encostar nele.”, diz. “Caso a alergia dele não seja cuidada, pode vir a óbito, pois toda alergia não tratada corretamente pode evoluir para quadros de infecção. Ainda mais em casos mais graves, como o do Vitor e de outras crianças Brasil a fora.”, complementa Angélica. No caso dela, conta, conhecer um profissional dedicado e cuidadoso foi fundamental. “Agradeço por ter encontrado professor Aderbral Sabrá, homem que se dedicou e trata com total seriedade a gravidade das alergias alimentares, que é algo que cresce absurdamente e não recebe a devida importância. Ainda existe falta de preparo de muitos médicos que realizam tratamentos errados. Além disso, gostaria de levantar uma questão muito importante, sobre as mães que dependem dos leites medicamentosos e que têm valores absurdos. No nosso caso, cada lata sai a R$180,00. Estamos há oito meses sem receber da instituição que nos fornece. Já estamos com recursos judiciais e vivendo de doações, rifas, praticamente vendendo a alma para não perder um filho.”, comenta, indignada – e com toda razão.

O assunto realmente é muito, muito importante, mas é válido alertar que nem todas as alergias são a leite e derivados. Outros alimentos também podem causar problemas para as crianças. Gabriella Sandoval, mãe da Julia, de quatro anos, conta que a alergia de sua filha começou quando ela tinha entre seis e oito meses, na primeira vez que ingeriu ovo mexido, conforme liberação da pediatra. “Ela estava dormindo no berço depois do almoço e, de repente, começou a vomitar e ficou com várias placas vermelhas pelo corpo e na cabeça.”, comenta. Gabriella conta que, caso não siga a risca a dieta, Julia pode ter fechamento de glote, placas vermelhas pelo corpo, e bastante vômito. E alergia, muitas vezes, não se manifesta apenas ingerindo os alimentos. Gabriella conta que, certa vez, foi pincelar um pastel e onde a clara encostou a pele ficou vermelha. A alergia é também de contato.

A médica Cristina explica que “as alergias alimentares se desenvolvem após exposição ao alimento que provoca a reação adversa, podendo surgir ainda na fase de recém-nascido, durante a infância ou na idade adulta. Não se sabe exatamente porque alguns desenvolvem alergia e outros não, mas existem alguns fatores de risco como imaturidade do sistema imunológico, desmame precoce (suspensão cedo do aleitamento materno), parto cesáreo e uso prolongado de antiácidos. A cura da alergia alimentar é possível em alguns casos. As reações alérgicas a leite de vaca, ovo, trigo e soja, por exemplo, tendem a se resolver até os 5 anos de idade. Já a alergia a amendoim, castanhas e mariscos pode ser mais duradoura ou definitiva.”. Aqui, vale outro alerta importante, lembrado pela nutricionista Alessandra: “O rótulo dos alimentos industrializados pode não ser tão claro, com letras miúdas, em contraste pouco legível, com lista de ingredientes de nomenclatura complexa, além do risco da presença de traços de alérgenos não informados.”. Ou seja, não é apenas retirar da alimentação do alérgico os produtos que são sabidamente com tais ingredientes, mas ficar de olho nos que parecem inofensivos também.

O tratamento, explica Cristina, é baseado na exclusão do alimento específico, e, por um determinado período, pelo menos, não há como “sair da dieta” sem que a criança apresente sinais e sintomas. Já em relação aos sintomas, alerta, podem ocorrer em minutos ou horas após a ingestão do alimento suspeito ou surgirem mais tardiamente (mais raro). As principais manifestações clínicas são urticária (placas avermelhadas na pele associadas à coceira), angioedema (inchaço de mãos, pés, lábios, pálpebras), sintomas gastrointestinais (náusea, dor abdominal, vômito, diarreia), asma (tosse, falta de ar, chiado no peito) e até anafilaxia (reação grave potencialmente fatal, porém mais rara). “Outras manifestações incluem recusa alimentar, falha de ganho de peso, presença de sangue nas fezes e irritabilidade. Há alguns exames laboratoriais que ajudam na conclusão diagnóstica, como os testes cutâneos (de puntura ou Prick Test) e a dosagem de IgE específica no sangue. Na maioria das vezes, o diagnóstico pode ser feito através da exclusão do alimento suspeito da dieta, observando-se melhora das queixas.”, comenta.  Até o presente momento, diz Cristina, o único tratamento eficaz é a eliminação completa da dieta do alimento causador da alergia. “Não são recomendadas rotineiramente vacinas subcutâneas nem orais/sublinguais. Alguns fármacos podem ser utilizados em um tipo específico de alergia alimentar menos prevalente, o grupo das doenças gastrointestinais eosinofílicas. No caso da alergia à proteína do leite de vaca, por exemplo, suspende-se o leite da dieta, substituindo-o por fórmulas à base de soja ou hidrolisadas. Depois de determinado período, o alimento pode ser reintroduzido (com acompanhamento médico) para avaliação do desenvolvimento de tolerância.”, complementa.

É preciso atenção, é claro, com todos os cuidados que a situação pede. Porém, diz Cristina Meirelles, não é necessário desespero ao descobrir que seu filho tem alergia alimentar, visto que, na maior parte das vezes, os sintomas mais comuns não são graves e a maioria se resolve até os 5 anos de idade. 

Gabriel Dantas do Nascimento, 18 anos, estudante de Farmácia, é um desses casos em que a alergia diminuiu com o tempo, mas não curou de fato. Ele nasceu com a alergia a leite. “Quando era criança, tinha reação alérgica forte só de encostar em leite. Já fiquei todo vermelho e empolado uma vez que abriram uma caixa de leite e umas gotas espirraram em mim. Se comesse alguma coisa que tivesse leite, sentia a garganta fechar. Hoje em dia, a reação é bem mais fraca, mas ainda sinto um incômodo na garganta e desconforto se comer algum alimento com leite. Algumas vezes, chego a vomitar. Os exames também mostram que minha alergia já melhorou, já fiz vários tratamentos, mas ainda tenho a alergia.”, conta. No dia a dia, sua alimentação não tem leite, o que não é um problema para ele. “É muito mais normal do que parece. Existem muitos biscoitos que não levam leite na composição, de várias marcas, com exceção para alguns sabores. Nunca comi chocolate comum, mas todos os que já provei, sem leite, eu não gostei. Então, acho que não gostaria dos comuns também. Não sinto falta de nada, só costumo perguntar ou desisto de comer se desconfio que algum alimento tenha leite. Estou acostumado. Algumas vezes dão respostas do tipo “não tem leite, só queijo.”, ou confundem com intolerância a lactose. Mas também não posso alimentos sem lactose, eles precisam ser realmente sem leite. Portanto, geralmente, prefiro nem comer. Desde pequeno estou acostumado a não comer muito na rua. Nas festas, sempre comia quibe, às vezes coxinha, quando sabia que não tinha leite. Nos meus aniversários sempre faziam bolos sem leite, geralmente bolo de laranja.”, comenta. No caso de Gabriel, sua pediatra dizia que ele poderia ficar curado com 10 anos, mas não foi o que aconteceu. “Ela só disse que iria melhorar com o tempo, mas não sei se um dia vou ficar totalmente curado. Alguns médicos dizem que sim.”, complementa. Gabriella também tem, além de Julia, outra pessoa na família com histórico de alergias: seu irmão. “A alergia da Julia está relacionada a apenas um alimento, mas convivi com o meu irmão, que era extremamente alérgico e só podia tomar um leite que meu pai importava da Alemanha. Só foi para a escola no pré porque não podia correr o risco de provar o lanche de um amigo. Nos aniversários, minha mãe não fazia bolo para ele não ficar com vontade. E como a pele dele ficava cheia de feridas, ele coçava e saía secreção. Então, minha mãe tinha que passar água morna para a roupa desgrudar da pele. Era horrível. Hoje ele está bem. Com o tempo, a alergia cessou. Mas sempre lembramos da cena de uma mãe tirando o filho de perto dele e ele mordendo o braço dela. Como as pessoas achavam que poderia ser contagioso, não deixavam as crianças perto ele. Esse foi mais um sofrimento que a doença trouxe. O isolamento social.”, lembra a mãe de Julia.

Mas como mostrar para as crianças o quão grave é para a saúde delas alguns alimentos? Será que elas têm essa noção do que deve ser evitado? Gabriel conta que, no caso dele, entendia e tinha medo de passar mal porque sempre soube das consequências. Por isso, evitava comer na rua, não chegava perto dos alimentos que não podia comer – como queijo. “Eu evitava tanto que nem teria vontade de comer hoje em dia se eu pudesse. Eu provava algumas coisas para substituir, feitas com leite de soja, mas não gostava, então acabava comendo só o que já conhecia e minha mãe e minha irmã sempre liam as embalagens dos alimentos pra mim. Criei esse hábito também. Desde criança minha mãe tinha o cuidado de sempre garantir que as comidas não tivessem leite, inclusive se a gente estivesse na casa de alguém ou em uma festa, por exemplo. Quando estava sozinho, eu perguntava se tivesse intimidade. Se não, acabava só comendo coisas que já estava acostumado ou não comia nada.”, complementa.

A médica Maria Fernanda comenta que as alergias alimentares apresentam uma significativa taxa de cura com o passar dos primeiros anos de vida, dependendo do tipo de alergia, do agente causal e da gravidade. “Para todos os tipos de alergia existe tratamento e estratégias de controle. É preciso consulta médica para avaliação caso a caso.”, relembra.

E para que vocês, mães, não entrem em pânico, escutem a palavra de um adulto que cresceu sabendo o que era alergia alimentar desde sempre: “Não se desesperarem porque é bem normal. Se educarem seus filhos para entenderem a alergia, eles vão ter a consciência de que não podem ter contato com aquilo e vão saber controlar isso sozinhos.”, comenta Gabriel. E a nutricionista Alessandra finaliza: “Crianças e adultos com alergia podem ter uma vida absolutamente normal, bastando seguir a dieta recomendada pelo nutricionista e entender o problema em questão para fazer as substituições alimentares adequadas.”.

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Redação

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